In Memoriam

 

Bernadino Coelho

Fui Mobilizado para o ultramar em 20 de Julho de 1963.

Desembarquei em Luanda, a 29 de Julho de 1963, e fui colocado no Hospital Militar.
Não sabia que o Senhor Doutor Espregueira se encontrava lá. O meu espanto foi grande quando fui recebido por ele! Era o oficial de serviço nesse dia!
A partir daí, tivemos uma vivência diária de boa amizade.
Houve um episódio caricato:
Fomos mobilizados para levar doentes internados no Hospital, para a Baía, Porto de Embarque, onde ia chegar o Senhor Presidente da República, Almirante Américo Tomás. Um grande disparate, comum nessa época.
Sempre que o Senhor Doutor vinha à Metrópole, evacuar doentes, mandava perguntar sempre se eu precisava de alguma coisa.
Sou um homem com muita sorte por ter tido a felicidade de encontrar o Senhor Doutor na minha vida.
Foi um grande Mestre, um grande Amigo, que me ajudou muito como Profissional e como Homem.

 

José Mesquita Montes

S. João, lugar que ocupou até ao seu falecimento.

Secretário do I Congresso Nacional de Or­topedia (Luanda, 1964), sócio efectivo da Socie­dade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia, da Sociedade Mundial de Cirurgia do Joelho, da ESKA e da S.I.C.O.T., deixou perto de duas dezenas de publicações.

De certa altura em diante, dedicou-se com particular entusiasmo à patologia do desporto e com especial interesse na patologia do joelho, patologia que dominou com extraordinária perícia e profundo conhecimento, o que o tornou mais notado ainda, quer no País quer no estrangeiro. O seu interesse pelos problemas do joelho levou-o a criar e presidir à Sub-Secção de Cirurgia do Joelho da S.P.O.T..
Quando do seu falecimento ocupava o lugar de Presidente de Colégio de Ortopedia.

 

Entusiasta, no seu sentido mais lato, tra­balhador incansável, prosseguiu com a sua ac­tividade até cerca de 20 dias antes de, aos 57 anos de idade, terminar a sua brilhante carreira no auge da mesma.
Grande como profissional foi-o, na mesma, como Chefe de Família e como Amigo. Sobreviveu-lhe a Esposa, que idolatrava, cinco filhos e três netas.

Dos filhos, o mais velho, nascido em 1960, era o seu enlevo e à preparação do qual, como futuro Ortopedista, se dedicou de alma e coração.

Desapareceu alguém que deixou um vazio que não poderá ser preenchido nos tempos mais próximos. Prova a Deus que o João Duarte pegue no facho que tombou e continue, e porque não, ultrapasse, aquele que todos choramos.

Paz à sua Alma!

 

Maria José Alves

 

É com emoção que recordo o já distante ano de 1967 quando, por intermédio do Sr. Dr. Ruy de Oliveira, conheci o Dr. Espregueira Mendes.
- Um homem alto, de olhar afável e directo.
Era verão! Encontrámo-nos no hospital de Santa Maria – um dos seus locais de trabalho.
Os anos sucederam-se no ciclo contínuo da vida:
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Todo o mundo é composto de mudanças”
Mas este Homem manteve-se firme e coerente ao leme da sua nau – sempre atento, sempre tolerante, sempre conscencioso e honesto, sempre amigo, sempre humano!
Um dia, à entrada do Hospital Santa Maria, junto do P.B.X, ouvi um fragmento de uma conversa:
um doente queria saber o nome do médico “ que trabalhava muito e falava pouco!”
Era assim o Sr. Dr. Espregueira – homem de poucas palavras, mas de uma capacidade de trabalho invulgar.
“Homem dum só parecer, dum só rosto e d´ûa fé “
Morreu a trabalhar!
Morreu de pé como as árvores!
E a sua equipa, apesar das vicissitudes e mutações, não deixou morrer a semente nem os seus ensinamentos.
Continuamos a cumprir a sua e a nossa missão.
Quantas vezes com que sacrifício! Mas sempre, sempre impelidos por “uma dinâmica de vitória!”
E continuamos coesos, amigos, solidários.
E tenho a certeza que “ Se lá no assento etéreo”, “ memória desta vida se consente”, rever-se-á complacente no seu continuador directo e na sua equipa.

 

Reinaldo Mesquita

É para mim motivo de grande orgulho poder contar-me entre os que foram colaboradores próximos do Dr. Espregueira Mendes.
Foi no longínquo ano de 1966 que, após ter sido colocado como Interno geral na Equipa de Urgência do Hospital de S. João, onde o Dr. Espregueira Mendes trabalhava, que nos conhecemos melhor. Como a especialidade de Ortopedia era do meu interesse, fui prestando a minha ajuda, sempre que os afazeres de Interno Geral mo permitiam.
Iniciou-se uma colaboração que, ao fim de pouco tempo, se estendeu para além da actividade hospitalar.
Comecei a deslocar-me a Viana do castelo, acompanhando os Drs. Espregueira Mendes e Mesquita Montes, ajudando nas consultas e no bloco operatório. Era uma tarde e noite de trabalho intenso, às vezes até horas avançadas.
Para além da deslocação bissemanal a Viana do Castelo, tivemos passagens fugazes pelos blocos operatórios dos hospitais de Lamego, Esposende e Arcos de Valdevez, onde, esporadicamente, fomos efectuar intervenções cirúrgicas.
A par disto, a nossa actividade no Hospital de santa Maria, onde os avanços da cirurgia ligamentar do joelho, de que o Dr. Espregueira Mendes foi pioneiro em Portugal, em moldes modernos, ia em crescendo, aumentando exponencialmente o nosso movimento clínico.
Desta forma, o nome do Dr. Espregueira Mendes e da sua equipa foram projectados, tendo por nós sido tratados largas dezenas de nomes famosos do mundo do desporto, particularmente do futebol.
Assim, durante mais de vinte anos, trabalhei com um Homem , à primeira vista frio e austero, mas que o era apenas na aparência. Dotado de uma capacidade de trabalho enorme, de uma pontualidade e honestidade exemplares, disciplinador, exigente mesmo consigo próprio. Era fundamentalmente amigo do seu amigo, defensor intransigente da sua equipa e, de um modo geral, dos seus colaboradores.
É este Homem, a quem muito devo, que recordo com emoção e saudade.

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